04/02/2014

El espíritu de Eduardo Coutinho, vivo por siempre

Este post va a ser un poco escabroso, pero ya la semana pasada tenía pensado subir tal artículo, antes de conocer del asesinato de Eduarto Coutinho, que ha caído como una losa sobre todos los amantes del documental y del cine brasileño. He aqui la noticia: http://www.lr21.com.uy/cultura/1156976-director-de-cine-brasileno-eduardo-coutinho-asesinado-en-rio-de-janeiroícu

El caso es que hace un mes escribì un artículo para mi asignatura de "Cinema e Narratividade", aquì en la Universidade Federal de Pernambuco, que consta con una entrevista fictícia a Eduardo Coutinho.
Espero que este artículo, al menos, deje constancia de la importancia de su carrera, de su influencia en mi persona, y que, desde este espacio, el espìritu de Eduardo Coutinho pueda continuar con vida.

Jogo de cenas: Entrevista fictícia a Eduardo Coutinho
e a um espetador do filme Jogo de Cena por um crítico cinematográfico

“Editar um documentário é organizar um encontro
entre a pessoa que fala é aquela que olha”
(Emmanuelle Jay - montadora francesa)

CENA I
Rio de Janeiro. Teatro Glauce Rocha. Um crítico está sentando em cena, sozinho frente a uma câmera. Entra no teatro uma espectadora e senta-se em uma poltrona da plateia.
CRÍTICO – Bom dia. Tudo bem?
ESPECTADORA – Tudo ótimo.
CRÍTICO – A verdade é que o Coutinho ainda não chegou, e aqui a gente está fazendo um teste de som. Vai demorar quase uma hora, mas você pode ficar lá sem problema... Eu estou repassando ideias para discutir com ele. Vou tentar que a nossa conversa seja do seu interesse, e vou tentar que vocês podam participar. Contudo, talvez as nossas palavras vão ser um pouco abstratas. Em parte essa é a minha tese e uma das conclusões que pego do filme: o Coutinho incita à abstração do espectador. Veja só algumas das questões... Talvez não vou fazer toda, vamos bater papo e sei lá...
- O senhor plateia um jogo entre ficção e realidade, mas como olha os sonhos dentro desse jogo, as falas das mulheres falando dos sonhos delas. Seriam um plano além do que você procurou?
- O que o senhor acha desses críticos que falaram do seu cinema como uma mistura entre o cinéma vérité e o cinema direct? Eu achei interessante a apreciação e gostaria que o senhor falasse em que tipo de cinema classificaria o seu...
(Problemas com o microfone impedem ouvir a metade da pergunta) - Achei que o filme tentava esfumaçar as relações entre... Nessa fronteira... a obra... senhor? 
(Aos técnicos) Oi! O que aconteceu?
(O crítico sai da plateia enquanto mais espectadoras ocupam as poltronas. O crítico segue repassando as perguntas e as dúvidas que vai falar com Coutinho).
CENA II
O mesmo. O crítico está sentando em cena. Uma câmera enfoca duas cadeiras lá encima. Atrás delas estão a plateia do teatro, lotada com espectadoras. Entra em cena Coutinho.
CRÍTICO – Bom dia, tudo bem? Se acomode à vontade.
COUTINHO – (brincando) Seria à vontade se tiver um cigarro na mão, mas vou tentá-lo, Carlos. Você como está?
CRÍTICO – Tudo bom também, obrigado. Bom, como o senhor sabe, a gente está aqui para falar do filme Jogo de Cena, dirigido no ano 2006 (à parte, a câmera) e que até hoje deixou rastros não somente na própria filmografia do Coutinho, senão que também no panorama do cinema documentário no Brasil e, atrever-me-ia a dizer que no mundo inteiro.  - Acho que este filme é complexo e muito interessante e por isso decidi fazer um jogo parecido ao que o senhor fez, salvaguardando a devida distancia, claro.
COUTINHO – É ótimo estar aqui outra vez depois de sete anos, junto a sua câmera e sob circunstancias diferentes.
CRÍTICO – É. O senhor já esteve aqui há vários anos, desde a posição do entrevistador. É isso o que o senhor acha de diferente nesta ocasião?
COUTINHO – Bom, poderia ser uma das deferências, mas não exatamente. Eu nunca gosto de me chamar “entrevistador”, e gosto mais de interagir e compartilhar palavras, bater papo mesmo com as pessoas. No entanto, acho que a primeira diferencia que percebi desta para a outra vez, que acaba de me chamar a atenção assim que sai à plateia, foi a posição da câmera. Eu nunca tinha estado de costas às poltronas aqui encima. Esta posição é chata, fica estranha para mim.
CRÍTICO – É aí? A verdade é que você chegou de repente a um dos pontos dos quais eu queria falar. É engraçado. Podemos começar por aí. Não sei se o senhor, quando falou que gosta de interagir com os atores, se sentiu ator alguma vez nos seus próprios filmes. O senhor acha que é difícil ser entrevistado?
COUTINHO – Hã-hã. É difícil falar disso, “complexo”, como você falou antes. É muito difícil, as atrizes já falaram e opinaram disso no filme, nos planos de making-of. Mas acho mais difícil e, porém, interessante entrevistar. É engraçado, porque eu gosto de jogar com a realidade e a ficção, mas eu gosto de ser eu quem dirige e enfoca numa direção. Eu sou diretor e poder-se-ia dizer que também sou um ator mesmo. “Você acha que na vida real sou como nas entrevistas? Sou mal-educado”[1]. Você pode perguntar a meu time[2]. Mas falando dos meus filmes, e pensando muito especialmente em Jogo de Cena, poderia dizer que não têm atores, mas personagens. Para mi tanto faz se são atores ou não. Bom, em realidade não, mas eu pretendo jogar, e eu pretendi jogar neste filme com isso, com as próprias atrizes, com as mulheres comuns, que contavam as histórias delas, e com os espectadores.
CRÍTICO – Eu achei que o filme tentava borrar, “esfumaçar as relações entre ficção e documentário”[3]. Nessa fronteira entre a ficção e o documentário ficaria a obra do senhor, não é?  Em que sentido você jogou com as atrizes, com as outras mulheres e com os espetadores?
COUTINHO – Eu gosto de jogar, e o jogo poderia ser um ato de desconstrução[4] da realidade para torna-la fictícia, ou da ficção para torna-la realidade. Joguei com as atrizes da seguinte maneira. Depois de eu filmar as mulheres anônimas, em junho, eu entreguei DVDs com as gravações delas para as atrizes, quem tiveram que aprender as histórias das mulheres. “Daí a um mês ou dois meses elas voltavam”[5]. Foi algo magnifico. Eu nem sequer pensei o que estava fazendo. Ao fim e ao cabo, eu nunca sei o que vou filmar. Se soubesse, não teria sentido fazer filmes. Lá, na filmagem de Jogo de Cena, tudo foi feito e construído na montagem, ainda que para mi a filmagem seja onde ocorre “o transe do cinema”.[6] Com certeza, eu tinha umas ideias e umas regras que ia respeitar, mas a coesão de tudo chegou quando eu tinha o material tudo na ilha de edição e daí peguei a essência. Para mim, não faz sentido impor umas ideias e um discurso a um material, e é por isso que eu me deixo levar pelo material, pelo momento da filmagem, pela ficção e pela vida real. A minha arte funciona, acho, assim.
CRÍTICO – Parafraseando a sua conhecida pergunta: e isso é bom ou é ruim?
COUTINHO – Acho que isso simplesmente faz que as pessoas se perguntarem e duvidem da vida e da tela, da vida que mostra a tela. Questionar sempre foi bom.
CRÍTICO – Coutinho, eu já vi o seu filme várias vezes, e as dúvidas nunca acabam. Com certeza que um filme cheio de questões será mais interessante para os espectadores e para a sociedade, porque contribuirá ao questionamento da imagem. É aí que eu poderia introduzir a questão da montagem, tão importante neste e nos seus outros filmes, acho. Acho que o seu cinema é um cinema de montagem, de montagem de imagens mais o menos inconexas mais fortemente ligadas pelas ideias e pelo dispositivo que você cria para cada filmagem.
COUTINHO – É isso mesmo. Eu crio um dispositivo, é dizer, umas regras nas quais tem que ser filmado “algo”. Aliás, as regras podem estar também na montagem. O roteiro vem na ilha de edição, junto com a minha montadora Jordana Berg. Ela acha que as nossas montagens são uma luta, uma luta contra o material mesmo e uma luta contra mim, mas sei que no fundo a gente se quer, muito. Ela sempre têm sugestões quanto à estrutura, quanto à narrativa, etc. Algumas vezes brigamos. Neste filme, a gente brigou muito (risos)
CRÍTICO – Achei muito interessante a construção do jogo e foi lendo quanto ao filme que consegui entender verdadeiramente a sua dificuldade. Como noutros filmes, Jogo de Cena, tem parte de “realidade fabricada”[7], mas para mim é sublime a emoção que nós sentimos, como espectadores, ao descobrir pouco a pouco o jogo que você criou. Quando assisti seu filme lembrei muito, além que seja bem diferente, do documentário iraniano Salaam Cinema, do diretor Mohsen Makhmalbaf. Foi realizado antes que o Jogo de Cena e num contexto bem diferente, mas ambos, poder-se-ia dizer que tem uma estrutura, e quase temática similar. Ambos filmes começam com um anúncio de jornal que procura pessoas para fazer um filme, e ambos filmes se desenrolam com conversas entre o diretor e os atores. Salaam Cinema é um filme feito com os planos filmados na prova de elenco; Jogo de Cena já tinha feito uma pré-seleção. Não sei se o senhor já viu o filme iraniano, mas achei interessante como é possível fazer cinema pegando os trechos de filmes “inservíveis”, incorporando-os a uma obra para que estes sejam imprescindíveis na obra final. Assim,..
(Um barulho no microfone impossibilita ao crítico continuar a sua fala)
CRÍTICO – (olhando para o técnico de som) Bom, não sei se os técnicos querem acabar, ou se verdadeiramente temos problemas. Seja como for, não temos mais tempo. Coutinho, são muitas as questões que ficam no ar, como no seu filme. Obrigado de novo pelas suas palavras e parabéns pelo seu sucesso, bem merecido.



CENA III
Rio de Janeiro. Teatro Glauce Rocha. Um técnico de som acaba de arrumar tudo.
TÉCNICO DE SOM – Achei que não acabaria nunca.[8]
FIM

Esta resenha do filme Jogo de Cena foi elaborada pelo estudante Pablo Hernández García para a disciplina de Cinema e Narratividade. Com certeza que a pesquisa que fiz para fazer esta resenha deu-me muitos conhecimentos e dicas que não estão na resenha de forma direta, mas é preciso citá-las. Contudo, gostaria de citar todas as referências usadas neste processo de aprendizagem e de “mergulho” na obra de Eduardo Coutinho.



Aurélio da Silva, Marcos. “Eduardo Coutinho e o cinema etnográfico para além da Antropologia”. Universidade Federal de Maranhão. Janeiro/Dezembro 2010.
Babilônia 2000. Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro, 2001. DVD
Bragança, Felipe. Encontros: Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Azogue, 2009. Impresso.
Coutinho, Eduardo. Entrevista concedida a Nina Rahe. Revista Bravo, São Paulo. Número 172. Dez 2011.
Jay, Emmanuelle. “Monter um entretien” Jornal d’une monteuse. WordPress. 19 dezembro 2013. Web. 23 dezembro 2013. Trad: Pablo Hdez.
Jogo de cena. Eduardo Coutinho. Rtio de Janeiro: Videofilmes, 2009. DVD.
“O Jogo de Cena de Eduardo Coutinho: Entre a estrutura e o acontecimento”.
Máximo Magalhães, Renata; “Jogo de Cena – a ficção documental em Eduardo Coutinho”. Nov 2011. Web.
Santo Forte. Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro, 1999. DVD.
Velho, João. “Videoguru entrevista: Jordana Berg, montadora”. 9 janeiro 2012. Web. 21 dezembro 2013.



[1] Entrevista concedida à Revista Bravo.

[2] “Videoguru entrevista: Jordana Berg, montadora”, feita por João Velho, publicada o 9 jan 2012.

[3] Vieira de Melo, Cristina Teixeira.      
[4] Conceito de “jogo” por Deleuze, comentado por Felipe Maciel Xavier Diniz na sua tese.
[5] Entrevista “Eduardo Coutinho em 5 Atos”.
[6] Coutinho apaud Bragança, 2009.
[7] Maciel Xavier Diniz, Felipe. “O Jogo de cena de Eduardo Coutinho”.
[8] Também isto é uma alusão, e crítica pessoal à duração do filme. Uma das coisas que menos gostei foi a duração dele. Pode ser porque sou estrangeiro e, em verdade, foi difícil entrar no jogo que projeta Coutinho. Na primeira visualização não sabia quem eram as atrizes conhecidas; na segunda mais ou menos; na terceira, depois de me informar, tudo foi melhor, certamente. Entendi o jogo de montagem.

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